THE MAGUS - Daemonosophia
(The Circle Music)
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
THE MAGUS não é apenas um nome: é uma lenda viva do black metal grego. Conhecido também como Magus Wampyr Daoloth ou simplesmente George Zacharopoulos, ele ajudou a forjar a cena helênica nos anos 90 tocando teclados e fazendo apoios vocais nos dois primeiros discos da ROTTING CHRIST, fundando a lendária NECROMANTIA e THOU ART LORD, e comandando o lendário Storm Studio em Atenas, onde nasceram clássicos do black/death metal grego.
Após o fim da NECROMANTIA em 2021, com a morte de Baron Blood, The Magus deu vida ao seu projeto solo em 2022. O debut “Βυσσοδομώντας” (2023) já mostrava ambição teatral e luciferiana. Agora, em 20 de fevereiro de 2026, chega “Daemonosophia” (The Circle Music), o segundo álbum, prometendo um som mais agressivo, dinâmico e vingativo, mantendo toda a atmosfera devoradora e infernal que define o projeto.
The Magus cuida de vocais, baixo e teclados, acompanhado mais uma vez pelo baterista Maelstrom (ex-THOU ART LORD, EMBRACE OF THORNS) e pelo guitarrista El (SOULSKINNER). O disco é uma jornada rumo à transformação interna, evolução espiritual e auto deificação através do caminho infernal, com a filosofia clara: “A Verdade está Abaixo, não Acima. A Trindade Profana. O Pacto Infernal”. Uma viagem não para se tornar um ser bestificado pelo cristianismo, mas despertar e integrar a própria natureza infernal, selvagem, poderosa e iluminada.
Com quase 47 minutos, “Daemonosophia! entrega black metal grandioso, teatral e complexo, com toques de heavy metal, elementos rituais e surpresas que só um músico com a bagagem de The Magus consegue conceber.
O álbum abre com a breve e sinistra "Pater Noster”, uma invocação distorcida que já mergulha o ouvinte num clima de profanação. A abertura perfeita para a negra egrégora que está por vir.
“Pseudoprophetae” explode em seguida como um ataque feroz, que mistura o black death metal com maestria. Blast beats impiedosos de Maelstrom, riffs com leads guinchantes e vocais ácidos de The Magus criam um assalto sensorial. A faixa cresce em camadas, alternando intensidade e atmosfera, com o baixo de The Magus ribombando como um trem subterrâneo. Um começo devastador que cumpre a promessa de maior agressividade.
Na sequência, a faixa-título, é épica desde seus primeiros segundos. Começa com cânticos masculinos profundos que dão lugar a vocais limpos femininos (Ioanna Noir Zacharopoulou), contrastando com os vocais infernais de The Magus. Os riffs são diretos no começo, mas ganham complexidade, com mudanças de andamento que vão do mid-tempo pesado a explosões mais velozes. É dinâmica, com dualidade vocal marcante e uma sensação de ritual que vai se intensificando. Quando a banda soa mais experimental, acerta e muito o coração dos antigos fãs do metal helênico.
O início evocativo de “The Six in Three is All One” (com Satan, Samael e outras entidades sendo evocados a plenos pulmões) traz riffs discordantes e afiados que cortam como lâminas. Os vocais ácidos dominam, mas a faixa respira entre momentos de escuridão inquietantemente melancólica e reconstruções de intensidade. O contraste entre velocidade e passagens mais densas mantém o ouvinte preso.
Um dos pontos altos do disco chega em “The Era of Lucifer Rising”: uma reinterpretação poderosa do clássico “The Era of Satan Rising” da THOU ART LORD. Aqui, a música ganha contornos mais melódicos e reflexivos, com partes limpas oníricas, coros e uma entrega vocal dramática e teatral de The Magus. Lenta, atmosférica e poderosa, a faixa carrega uma mensagem de elevação e reinado pessoal que ressoa profundamente. Ouvi-la nesta releitura foi um dos melhores momentos que o metal helênico já me proporcionou.
De começo reflexivo e quase etéreo, “Magia Obscura” logo abre em um raw black metal com riffs esmagadores. O elemento melódico retorna como uma corrente subterrânea assombrada, sussurrando entre as sombras, enquanto uma narração mística emerge do vazio e leads sutis tecem lentamente uma atmosfera envolta em mistério profundo. É uma das faixas que melhor equilibra a fúria selvagem com a teatralidade sombria e grandiosa do disco. Impossível não destacar a qualidade técnica do grupo, que consegue criar melodias memoráveis a cada nova mudança de andamento.
Em “Amelia”, a banda exerce sua veia mais tradicional, evocando sonoramente grandes baluartes do heavy metal tradicional, como MERCYFUL FATE em muitos momentos. Solos suntuosos, trabalho de teclado e vocais que repetem o nome “Amelia” de forma teatral criam um clima dramático e cinematográfico. Começa reflexiva e explode em leads voadores, misturando beleza sombria com a acidez característica. Uma faixa direta, que mostra bem a versatilidade da banda em reverenciar suas influências.
Para alguns, “The Chapel of Iniquities” é mais um momento de destaque no disco. A faixa se inicia envolta por atmosferas sobrenaturais e batidas de caráter ritualístico, quase hipnóticas, que parecem conduzir o ouvinte para além do concreto. Aos poucos, ergue-se uma muralha fria de riffs tradicionais do black metal, densa e implacável. A música transita entre o sagrado e o primitivo, entre a evocação e o instinto, enquanto vozes declamadas, vocais crus e teclados se entrelaçam, formando uma experiência profunda e absorvente. São pouco mais de quatro minutos de intensidade contínua, onde tudo pulsa com força e propósito.
Uma das faixas mais diretas de todo o disco, “The Pact” soa mais veloz, mas apresenta elementos típicos do que já ouvimos em momentos anteriores. Talvez por se assemelhar tanto com momentos passados, não acrescenta muito ao andamento do disco, não deixando de ser outra pela peça nesta obra.
O encerramento com “La Llorona Negra” é simplesmente brilhante. Inspirada na lenda folclórica latino-americana (e na performance de Diamanda Galás que marcou The Magus), começa com piano, órgão (em andamentos maravilhosos, quase burlescos) e os vocais etéreos de Ioanna Zacharopoulou. Só na metade entra a sonoridade mais agressiva, com The Magus assumindo os vocais crus. O contraste entre beleza gótica e fúria infernal é perfeito, transformando a faixa em uma maravilhosa odisseia negra. O lindo fraseado de guitarra ao final sintetiza, de forma triunfante, a experiencia de saborear este disco.
“Daemonosophia” é um passo à frente em relação ao debut. Mais agressivo, dinâmico e ritualístico, mas sem perder a grandiosidade teatral, a complexidade composicional e a atmosfera helênica que definem o projeto. The Magus prova mais uma vez seu talento como compositor e multi-instrumentista, Maelstrom entrega uma performance tempestuosa na bateria, e El massacra com riffs e solos inspirados. O disco flui com naturalidade, mesclando black metal tradicional grego com elementos heavy, rituais e até influências da música regional. É black metal mediterrâneo no seu melhor: elaborado, sem pretensão vazia, cheio de paixão e profundidade luciferiana. Um dos lançamentos mais maduros e impactantes do metal extremo em 2026.
EM POUCAS PALAVRAS:
DESTAQUES:
Uma das tarefas mais difíceis, para mim, é citar destaques em um disco tão acima da média. Mas “The Era of Lucifer Rising” (reinterpretação poderosa, que engrandece ainda mais a faixa original), “The Six in Three is All One” (e sua bela fusão entre o ritualístico e o agressivo), “The Chapel of Iniquities” (de brilhante intensidade ritualística) e “La Llorona Negra” (contraste genial entre o sacro e o profano), merecem audições especiais.
PONTOS DE ATENÇÃO:
Para mim, a única faixa que não acrescenta muito à obra é “The Pact”. Não que esta seja uma faixa menor, mas, por trazer elementos já presentes em faixas anteriores, pode causar certo cansaço nesta etapa da audição. Porém, nada que diminua a intensidade poderosa deste álbum.
EXTRA-MÚSICA:
“Daemonosophia” possui uma arte magnífica, assinada por Nestor Avalos (responsável também por artes para EXODUS, DEICIDE, ROTTING CHRIST, etc.) retratando um tríptico infernal com Lucifer/Samael, Leviathan/Tiamat e Belial/Satan. Valeu muito a pena ver os vídeos para “Pseudoprophetae” e “Magia Obscura”, dois “lyric vídeos” que refletem muito bem a atmosfera do álbum.
VALE A PENA?
Com certeza!! Se você aprecia black metal grandioso, teatral, com alma grega, filosofia luciferiana e composições que vão além do simples blast-beat, “Daemonosophia” é essencial. Muito mais do que apenas música, este disco prova que o black metal precisa ter sim forte tema ideológico e filosófico. Coloque no repeat e deixe o véu se rasgar. Ouça com atenção. A verdade está abaixo. Um primor do underground helênico.
9.6/10
(Daniel Aghehost)
TRACK LIST
1. Pater Noster
2. Pseudoprophetae
3. Daemonosophia
4. The Six in Three Is All One
5. The Era of Lucifer Rising (Thou Art Lord cover)
6. Magia Obscura
7. Amelia
8. The Chapel of Iniquities
9. The Pact
10. La Llorona Negra