VARGRAV – Dimension: Daemonium
Finlândia | Black Metal
Werewolf Records | Clique aqui para adquirir
2026
FORMAÇÃO
V-KhaoZ - All instruments, Songwriting, Lyrics
Werwolf - Vocals
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
A formação da VARGRAV mudou novamente após “The Nighthold” (2023). Reduzido ao núcleo composto por V-KhaoZ, responsável por todos os instrumentos, e Graf Werwolf von Armageddon nos vocais, o grupo abandona parte da extensão e da complexidade narrativa do álbum anterior para concentrar sua música em 42 minutos de puro caos cósmico. “Dimension: Daemonium”, lançado oficialmente no dia 16 de abril pela Werwolf Records, continua ligado ao symphonic black metal da década de 1990, especialmente ao equilíbrio entre agressividade, melodias sombrias e teclados dominantes encontrado em EMPEROR, LIMBONIC ART e TARTAROS. A diferença é que, desta vez, as composições estão mais curtas, diretas e organizadas ao redor de ideias facilmente reconhecíveis.
Essa concisão não significa contenção. A VARGRAV continua trabalhando com excesso: blast beats, guitarras em tremolo, coros, sintetizadores e vocais estridentes ocupam quase todos os espaços da gravação. Contudo, por baixo dessa quantidade de camadas, as músicas possuem estruturas relativamente simples. V-KhaoZ apresenta uma melodia, aumenta sua intensidade, desmonta momentaneamente o arranjo e volta a reconstruí-lo com novos timbres ou outra pulsação. É esse movimento, mais do que uma grande variedade de riffs, que sustenta boa parte do disco.
“Intro (Thy Daemonium)” prepara essa entrada com pouco mais de dois minutos de sintetizadores, efeitos e a participação vocal de Miitri Aaltonen. A declaração “You are not prepared” não deve ser entendida apenas como uma ameaça teatral. Ela funciona como aviso ao ouvinte que ainda não está preparado para o que está por vir. Quem ignora o chamado é imediatamente surpreendido por “Ablaze Upon the Nocturnal Realms”, que elimina qualquer transição confortável entre a introdução e o álbum propriamente dito.
A faixa começa em alta velocidade, com blast beats e guitarras ásperas quase encobertas por teclados agudos. A produção não distribui esses elementos em planos perfeitamente separados; prefere reuni-los em uma massa compacta, na qual os sintetizadores atravessam os riffs em vez de permanecerem ao fundo. O detalhe que diferencia a composição aparece por volta da metade, quando vozes limpas e corais interrompem os viscerais gritos de Werwolf. A mudança não diminui a intensidade, mas acrescenta uma linha melódica mais nítida e estabelece um dos procedimentos recorrentes do álbum: abrir uma passagem dentro do caos e depois fechar novamente o arranjo ao redor dela. Magnifica!
Werwolf tem participação decisiva nesse efeito. Seus vocais são agudos, ásperos e pouco preocupados com a inteligibilidade das palavras. Em vez de conduzir as melodias, funcionam como mais uma camada rítmica, atacando os espaços deixados pela bateria e pelos teclados. Os momentos de canto limpo, usados com moderação, tornam-se importantes justamente porque quebram essa postura quase permanente de confronto.
“Moonfrost Storms” desenvolve melhor as possibilidades dessa fórmula. Seus seis minutos e meio permitem que a música transite entre a velocidade inicial, passagens intermediárias menos congestionadas e um terço final conduzido por teclados mais destacados. O sintetizador não se limita a sustentar acordes: utiliza uma linha levemente tortuosa, quase circular, que contrasta com a regularidade dos blast beats. A declaração vocal que surge no centro da composição funciona como divisor, encerrando a primeira investida e preparando a retomada melódica. Em vez de apenas empilhar instrumentos, a faixa reorganiza a hierarquia entre eles ao longo de sua duração. Por isso, é um dos momentos em que a grandiosidade da VARGRAV nasce da composição, e não somente da produção.
A ligação da banda com o black metal dos anos 1990 não está apenas nos timbres escolhidos. Ela aparece na maneira como os teclados criam melodias independentes sobre bases de guitarra mais simples e na disposição de levar a teatralidade do gênero a sério. Não há distanciamento irônico nem tentativa de justificar o exagero. “Dimension: Daemonium” acredita plenamente em seus coros, seus títulos e sua atmosfera sobrenatural. Essa convicção impede que o trabalho se transforme em algo mediano, embora não resolva todos os seus problemas.
“Dragons of Nightmare”, por exemplo, começa de maneira mais cadenciada e primitiva, com uma introdução que recupera o caráter épico do BATHORY. A abertura promete uma construção diferente, menos dependente da velocidade, e durante alguns minutos a faixa alterna marcha, passagens narrativas e acelerações. A bateria deixa de ser apenas uma corrente de blast beats, enquanto as guitarras ganham alguma presença antes de os teclados retomarem o controle. Entretanto, a composição não desenvolve todas as possibilidades sugeridas por esse início. Depois da boa preparação, retorna a soluções já utilizadas nas músicas anteriores e perde parte de sua identidade na segunda metade. Não chega a comprometer a sequência, mas é um caso em que a ambientação se mostra mais memorável do que o desenvolvimento.
A passagem para a segunda metade do álbum apresenta sua composição mais completa. “The Gates of My Dimension” trabalha melhor a alternância entre ataque e suspensão, permitindo que os sintetizadores criem espaços mais amplos antes da entrada das guitarras e da bateria. Em vez de manter todos os instrumentos no limite, V-KhaoZ retira elementos, reduz a pulsação e reconstrói a música aos poucos. Um interlúdio declamado, próximo dos três minutos e meio, interrompe o avanço e serve como ponto de articulação.
Quando a instrumentação retorna, a melodia anterior ganha outro peso porque foi precedida por uma preparação para o devido mergulho profundo. E é incrível como tudo fica ainda melhor após este interlúdio. Essa manipulação da densidade faz da faixa um dos exemplos mais convincentes da capacidade de composição de V-KhaoZ. Se pudesse indicar apenas uma faixa deste disco a alguém que não conhece a banda, esta seria a eleita.
“Bleeding Galaxies” reage a essa abertura atmosférica com uma abordagem mais direta. Seus menos de cinco minutos são conduzidos por bateria insistente, tremolos e um riff que remete à marcha agressiva da antiga EMPEROR. Os teclados continuam presentes, mas a música depende mais claramente do impulso das guitarras. A menor duração favorece a brutalidade, embora também revele uma limitação: há pouco desenvolvimento depois que a ideia principal é estabelecida. Dentro do álbum, ela funciona como um golpe curto entre duas composições mais elaboradas; isoladamente, é uma das faixas menos inventivas.
Já “Starlight Chalice” utiliza a agressividade inicial para chegar a outro lugar. A primeira metade conserva a velocidade e a saturação características do disco, mas a segunda introduz uma pulsação ternária próxima de uma valsa. A mudança altera a sensação de movimento: a faixa deixa de avançar em linha reta e passa a oscilar, enquanto os teclados assumem um caráter melancólico. É uma variação pequena em termos técnicos, porém decisiva dentro de um álbum tão comprometido com a intensidade contínua. A música não abandona a linguagem da VARGRAV; apenas reorganiza seu ritmo e permite que a melodia respire.
Essa passagem também evidencia o trabalho de produção. V-KhaoZ gravou e produziu o material, enquanto Trollhorn (antigo guitarrista da banda) foi responsável pela produção adicional, mixagem e masterização. O som é poderoso, mas deliberadamente comprimido. Os teclados permanecem muito à frente, as guitarras ocupam uma faixa mais estreita e a bateria privilegia velocidade e continuidade em vez de impacto físico. Os bumbos poderiam soar mais encorpados e certos riffs mereciam maior definição. Por outro lado, separar completamente os instrumentos talvez retirasse justamente a sensação de pressão que caracteriza o álbum. A mixagem é simultaneamente uma força e uma restrição: cria identidade, mas exige várias audições para que os detalhes apareçam.
“Unveil the Enslavement of Lunar Prophecies” encerra o disco sem simplesmente repetir essa parede sonora. A faixa apresenta algumas das guitarras mais melódicas do trabalho e aproxima a VARGRAV do impulso melancólico, por exemplo, da antiga DISSECTION. Os teclados ainda ampliam o cenário, mas deixam de carregar sozinhos a composição. O riff possui movimento próprio, a bateria alterna velocidade e passagens mais lentas, e as melodias se tornam progressivamente mais claras. Nos minutos finais, a instrumentação recua até chegar a um breve desfecho de guitarra, inesperadamente sereno depois de quarenta minutos de pura explosão. Não é apenas um resumo do que veio antes: é a faixa que melhor sugere uma direção futura, na qual a banda poderia confiar mais nas guitarras sem diminuir sua dimensão sinfônica.
“Dimension: Daemonium” não supera “Netherstorm” (2018) em impacto nem apresenta uma mudança profunda na linguagem da VARGRAV. Em compensação, corrige parte do excesso de duração de “The Nighthold” e encontra uma forma mais objetiva de organizar suas ideias. Nem todas as músicas desenvolvem o material com a mesma profundidade; “Dragons of Nightmare” e “Bleeding Galaxies” dependem mais da ambientação e da energia do que de transformações internas. Nos melhores momentos, porém, a banda demonstra que sua força não está apenas em reproduzir uma estética conhecida, mas em compreender como riffs, teclados e mudanças de andamento podem produzir tensão dentro dela.
A VARGRAV permanece assumidamente presa a uma tradição. Isso não é escondido nem tratado como provocação. O que diferencia “Dimension: Daemonium” de uma tonelada de lançamentos similares é a seriedade com que V-KhaoZ trabalha cada camada e, sobretudo, a capacidade de encontrar variações dentro de uma proposta bastante rígida. Quando reduz a velocidade, desloca a pulsação ou deixa as guitarras atravessarem os teclados, o álbum revela muito mais do que sua grandiosidade imediata.
Ainda há espaço para equilibrar melhor os instrumentos e oferecer maior individualidade a determinadas faixas, mas poucas bandas atuais executam esse tipo de black metal sinfônico com tamanha convicção.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Moonfrost Storms”, “The Gates of My Dimension”, “Starlight Chalice” e “Unveil the Enslavement of Lunar Prophecies”
8.5/10
(Daniel Aghehost)