MENU
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: LEFT TO DIE – Initium Mortis (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 02/10/2026 10:45
Resenhas

LEFT TO DIE – Initium Mortis

ESTADOS UNIDOS | Death Metal

Relapse Records | 

2026

 

FORMAÇÃO

Rick Rozz - Guitars

Terry Butler - Bass

Matt Harvey - Vocals, Guitars

Gus Rios - Drums

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

A LEFT TO DIE nasceu com uma finalidade bastante específica: levar novamente aos palcos o material dos primeiros anos da DEATH. Rick Rozz e Terry Butler, ex-integrantes da banda, uniram-se a Matt Harvey e Gus Rios, ambos da GRUESOME, para recuperar uma fase que se tornou fundamental para a formação do death metal. O projeto rapidamente deixou de ser apenas uma celebração ao vivo de “Scream Bloody Gore” e “Leprosy”. Depois de uma primeira turnê organizada em poucos meses, surgiu a possibilidade de gravar um álbum. Em vez de tentar compor novas músicas capazes de suportar comparações inevitáveis com a obra de Chuck Schuldiner, a banda decidiu voltar ainda mais no tempo.

“Initium Mortis”, expressão latina que pode ser traduzida como “o início da morte”, recupera dez composições das primeiras demos do MANTAS e do DEATH, gravadas entre 1983 e 1986, antes do lançamento de “Scream Bloody Gore”. São músicas que circularam durante décadas em fitas copiadas inúmeras vezes, registros de ensaio e gravações cuja precariedade por vezes tornava difícil distinguir os instrumentos. Eu mesmo já tive tantas versões destas demos que algumas das músicas de “Initium Mortis” são praticamente inéditas. A proposta da LEFT TO DIE é conceder a esse material uma gravação consistente, preservando a simplicidade dos arranjos e a violência juvenil de suas versões originais.

Lançado em 17 de julho de 2026 pela Relapse Records, “Initium Mortis” não apresenta composições inéditas da banda. Seu valor está na maneira como reorganiza uma parcela embrionária da história do death metal. O disco permite ouvir com clareza ideias criadas quando Chuck Schuldiner, Kam Lee e Rick Rozz eram adolescentes tentando empurrar o thrash e o speed metal para uma forma mais repulsiva, veloz e agressiva. Muitas dessas músicas não sobreviveram até “Scream Bloody Gore”, mas já continham elementos que logo seriam utilizados para definir um gênero inteiro.

“Legion of Doom” abre o álbum com uma sequência de acordes cadenciados que remete ao peso primitivo da CELTIC FROST. O andamento alterna esse movimento arrastado com acelerações diretas, enquanto o baixo de Terry Butler fornece uma base encorpada para as guitarras. Matt Harvey reproduz com impressionante proximidade o timbre adotado por Chuck Schuldiner em seus primeiros anos, preservando a rouquidão e a dicção deteriorada daqueles vocais sem transformá-las em caricatura. A interpretação é fiel o suficiente para estabelecer imediatamente a ligação com o DEATH, mas também possui força para funcionar fora do contexto da homenagem.

As limitações das composições aparecem desde o início. As estruturas são simples, os riffs costumam ser repetidos e as transições nem sempre demonstram o refinamento que Chuck desenvolveria poucos anos depois. Essa condição não deve ser disfarçada. “Initium Mortis” reúne músicas escritas por adolescentes que ainda organizavam suas influências e descobriam os limites do que podiam tocar. A banda compreende essa natureza e resiste à tentação de reescrever o material. Os arranjos permanecem curtos e objetivos, com poucas alterações que possam ser entendidas como interferências contemporâneas.

“Archangel” apresenta melhor equilíbrio entre velocidade e construção musical. A bateria de Gus Rios sustenta o ataque sem soar mecânica, enquanto Harvey e Rozz alternam riffs cortantes, acordes abafados e solos deliberadamente caóticos. A produção possui clareza e peso, mas evita o acabamento excessivamente digital de muitas regravações modernas. O resultado não reproduz o som de uma fita de ensaio dos anos 1980, algo praticamente impossível e provavelmente indesejável, porém conserva suficiente aspereza para impedir que a música pareça esterilizada.

“Power of Darkness” expõe com maior clareza a contradição do projeto. A gravação moderna permite perceber a construção dos riffs e a participação de cada instrumento, mas também retira parte da ameaça que existia na precariedade original. O material antigo parecia emergir de um ambiente fechado e insalubre; agora, apresenta contornos definidos e músicos plenamente conscientes do que estão executando. A versão continua pesada, embora as guitarras pudessem receber maior profundidade, e algumas linhas melódicas acrescentadas pelos dois guitarristas parecem sofisticadas demais para uma música cuja força nasceu justamente de sua rudeza.

A instrumental “Zombie” diminui a velocidade e introduz uma atmosfera mais sombria. Seu desenvolvimento indica que o MANTAS já possuía ambições que ultrapassavam a descarga direta de velocidade, trabalhando melodias e transições próximas ao heavy metal tradicional. A influência de “Transylvania”, do IRON MAIDEN, pode ser percebida na maneira como as guitarras conduzem a narrativa sem a presença dos vocais, embora tudo seja filtrado pela sonoridade mais suja e agressiva que culminaria no death metal. Dentro de um repertório dominado por composições curtas e velozes, a faixa oferece uma variação importante.

“Witch of Hell” está entre os momentos mais eficientes de “Initium Mortis”. Os riffs possuem imediatismo, os solos irrompem com a desordem necessária e a bateria equilibra velocidade e impacto. A gravação atual revela como Chuck Schuldiner já buscava melodias capazes de permanecer na memória, mesmo quando suas composições ainda dependiam de estruturas rudimentares. A música não precisa de grande desenvolvimento para funcionar: seu valor está na combinação entre uma ideia simples, uma execução feroz e a sensação de que aqueles músicos tocavam além de suas próprias limitações.

“Rise of Satan” torna mais visível a presença do heavy e do speed metal na formação do MANTAS. Antes que o death metal adquirisse uma linguagem claramente reconhecível, essas músicas compartilhavam elementos com MOTÖRHEAD, JUDAS PRIEST, VENOM, SLAYER e CELTIC FROST. O riff principal possui uma cadência direta, quase roqueira, que seria progressivamente abandonada pelo DEATH à medida que sua música se tornasse mais pesada e complexa. Ouvida quatro décadas depois, a faixa ajuda a compreender que o gênero não surgiu pronto: foi construído a partir da deformação de referências anteriores.

“Summoned to Die” recupera a violência mais crua do conjunto. O baixo ocupa uma posição destacada, as guitarras evitam adornos desnecessários e Gus Rios conduz a música com uma bateria seca e orgânica. Essa sonoridade beneficia o repertório, embora a pouca variação entre algumas faixas comece a se tornar perceptível. A maioria das composições apresenta andamento acelerado, riffs simples e duração próxima de dois ou três minutos. O álbum consegue disfarçar parcialmente essa homogeneidade por permanecer abaixo da meia hora, mas determinados trechos parecem intercambiáveis.

Essa semelhança não é resultado de falta de cuidado da LEFT TO DIE. Ela pertence ao próprio material recuperado. As músicas foram criadas durante um período curto, por jovens músicos fascinados pelas mesmas referências e interessados sobretudo em tocar mais rápido, mais pesado e de maneira mais grotesca do que as bandas ao redor. A produção atual torna essas repetições mais evidentes porque retira a névoa das demos. Aquilo que antes parecia caótico agora pode ser examinado em detalhes, incluindo suas conquistas e suas limitações.

“Mantas” preserva a sensação de entusiasmo juvenil que impulsionava a primeira formação. A música carrega o nome original do DEATH e funciona quase como uma declaração de princípios. O baixo de Butler oferece peso, Harvey mantém a proximidade vocal com Chuck e os solos de Rozz conservam a abordagem descontrolada que se tornaria uma de suas marcas. A execução é mais precisa do que qualquer versão gravada nos anos 1980 poderia ter sido, mas a banda evita converter essa precisão em exibicionismo.

“Slaughterhouse” apresenta uma brutalidade que antecipa parte do death metal norte-americano do começo da década seguinte. Seus riffs pesados e a abordagem vocal apontam para uma forma de agressão que seria desenvolvida por nomes como a CANNIBAL CORPSE, ainda que a composição permaneça presa ao vocabulário simples do MANTAS. É um exemplo interessante de como certas ideias presentes nas primeiras demos poderiam desaparecer da discografia oficial do DEATH e, ao mesmo tempo, ressurgir na obra de outras bandas.

“Death by Metal” encerra o álbum com a mesma urgência que orienta todo o repertório. O título define de forma quase literal aquilo que Chuck Schuldiner, Kam Lee e Rick Rozz tentavam criar: uma música na qual a morte não aparecesse apenas como tema, mas como descrição de uma nova maneira de tocar metal. A faixa combina velocidade, riffs rudimentares e uma agressividade ainda próxima do punk, encerrando o disco sem qualquer tentativa de conclusão grandiosa. São pouco menos de três minutos que resumem uma ideia em processo de formação.

Matt Harvey é fundamental para que “Initium Mortis” funcione. Sua experiência na GRUESOME já havia demonstrado o quanto conhece as diferentes fases do DEATH, mas aqui sua interpretação se concentra no período em que os vocais de Chuck eram mais graves, repulsivos e menos articulados. A semelhança impressiona, embora Harvey evite transformar a performance numa simples imitação. Seu trabalho nas guitarras também respeita a economia dos arranjos, introduzindo apenas algumas harmonizações e solos que não existiam de maneira tão definida nas gravações originais.

Rick Rozz possui uma relação direta com parte desse material e oferece legitimidade histórica ao projeto, mas sua presença é mais importante musicalmente do que como selo de autenticidade. Seus solos continuam utilizando alavancadas, ruídos e frases rápidas que parecem à beira do colapso. Terry Butler mantém o baixo suficientemente alto para reforçar os riffs, enquanto Gus Rios entrega uma bateria vigorosa e pouco ornamentada. O som dos tambores é um pouco seco em alguns momentos, porém combina com a objetividade das composições.

A produção encontra uma solução razoável para um problema que não poderia ser completamente resolvido. Reproduzir o som original significaria manter as músicas praticamente inaudíveis; polir demais o material destruiria sua identidade. “Initium Mortis” ocupa uma região intermediária. A gravação é forte, clara e encorpada, mas ainda conserva certa rugosidade. Em alguns trechos, a compressão torna a seção rítmica excessivamente dominante e esconde nuances dos vocais. Mesmo assim, o álbum oferece a essas composições uma unidade sonora que nenhuma remasterização das demos seria capaz de alcançar.

A escolha de não escrever material novo também pode ser entendida de duas maneiras. Por um lado, protege a LEFT TO DIE de uma comparação que dificilmente lhe seria favorável. Qualquer tentativa de criar um sucessor espiritual para “Leprosy” seria recebida com expectativas quase impossíveis de cumprir. Por outro, mantém a banda inteiramente dependente do legado de Chuck Schuldiner. “Initium Mortis” não responde ao que a LEFT TO DIE poderia produzir por conta própria; apenas confirma sua habilidade para tratar com respeito e competência uma obra preexistente.

Esse limite não invalida o disco. As músicas foram escolhidas justamente por nunca terem recebido versões definitivas em estúdio, o que transforma a iniciativa em algo mais significativo do que uma simples coleção de regravações conhecidas. A banda realiza uma espécie de arqueologia musical: retira as composições das fitas deterioradas, preserva suas estruturas e permite que sejam ouvidas como um álbum coerente. O resultado também incentiva o retorno às demos, pois a clareza das novas versões desperta a curiosidade sobre a violência quase incompreensível daqueles registros originais.

A arte de Dan Goldsworthy complementa essa proposta. Inspirada pela linguagem visual do metal extremo dos anos 1980, a capa recupera monstros, túmulos e cores intensas sem simplesmente reproduzir o trabalho de Ed Repka. Assim como a música, a ilustração utiliza ferramentas modernas para reconstruir uma estética antiga. Tudo em “Initium Mortis” foi pensado para ocupar esse espaço entre preservação e atualização.

O álbum não possui a força transformadora de “Scream Bloody Gore” nem a consistência de “Leprosy”. Seria injusto exigir isso de composições que foram descartadas ou abandonadas antes que a DEATH chegasse ao primeiro disco. Os riffs são mais simples, as músicas se parecem entre si e algumas passagens pertencem claramente a uma banda ainda em formação. Ao mesmo tempo, justamente por isso, “Initium Mortis” possui interesse histórico e musical. É possível acompanhar o momento em que thrash, speed metal, punk e heavy metal começaram a ser empurrados em direção a algo mais brutal.

A LEFT TO DIE não tenta substituir Chuck Schuldiner, completar sua obra ou reivindicar para si uma história que pertence a outra banda. “Initium Mortis” funciona como uma homenagem executada por músicos que compreendem profundamente esse repertório e, no caso de Rick Rozz, participaram diretamente de suas origens. Curto, agressivo e consciente de seus limites, o disco devolve presença física a músicas que sobreviveram durante décadas sob camadas de chiado.

A maior qualidade de “Initium Mortis” está em apresentar essas composições sem lhes atribuir uma importância que não possuíam originalmente. Elas não são obras-primas esquecidas capazes de rivalizar com os álbuns clássicos do DEATH, mas registros valiosos de uma linguagem ainda em construção. A LEFT TO DIE oferece a melhor versão possível desse material sem esconder sua natureza rudimentar. Entre o documento histórico e o álbum de death metal, o resultado funciona melhor quando entendido como as duas coisas ao mesmo tempo.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Legion of Doom”, “Archangel”, “Zombie”, “Witch of Hell”, “Mantas” e “Death by Metal”

 

9.3/10

 

(Daniel Aghehost)

 


Comentários