FUNEBRARUM – Beckoning the Void of Eternal Silence
Estados Unidos | Death Metal
Pulverised Records | Clique aqui para adquirir
2026
FORMAÇÃO
Daryl Kahan - Vocals
Winslow - Bass, Vocals (backing)
Charlie Koryn - Drums
Sam Osborne - Guitars
Phil Tougas - Guitars, Vocals (backing), Keyboards
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Dezessete anos separam “The Sleep of Morbid Dreams” do terceiro álbum da FUNEBRARUM. Para uma banda que construiu sua reputação no underground com apenas dois trabalhos completos e alguns lançamentos menores, trata-se de um intervalo considerável. Mas “Beckoning the Void of Eternal Silence” não é exatamente o resultado de um retorno recente aos estúdios. Gravado em 2019, o disco permaneceu inédito durante aproximadamente sete anos, atravessando adiamentos e mudanças no cenário musical até finalmente chegar ao público em maio de 2026, pela Pulverised Records.
A espera, felizmente, não resultou em uma tentativa de modernizar artificialmente a sonoridade da banda. A FUNEBRARUM continua comprometida com o death metal sombrio que desenvolveu desde o início de sua trajetória, mas apresenta agora uma abordagem mais elaborada, na qual a brutalidade divide espaço com melodias fúnebres, teclados discretos e estruturas que frequentemente se aproximam do death/doom.
A mudança não representa uma ruptura. O que temos é uma ampliação das possibilidades musicais de uma banda que sempre demonstrou interesse pela atmosfera, mesmo quando suas composições eram conduzidas por riffs particularmente agressivos.
A atual formação ajuda a compreender esse resultado. Daryl Kahan permanece como principal ligação com os primeiros registros, enquanto a presença de Phil Tougas, também conhecido por seus trabalhos com CHTHE'ILIST e WORM, acrescenta outra dimensão ao desenvolvimento das guitarras. Ao lado de Samuel Osborne, o músico estabelece uma combinação de riffs pesados, passagens dissonantes e solos melódicos que se tornará uma das principais características do álbum.
A curta introdução “The Arrival” já apresenta uma diferença em relação à abordagem mais imediata dos trabalhos anteriores. Os teclados e a construção quase cinematográfica criam uma sensação de isolamento que encontra correspondência na capa, também assinada por Kahan. A paisagem congelada não é apenas uma escolha visual interessante: ela traduz com precisão a atmosfera que a FUNEBRARUM procura desenvolver ao longo das composições.
Quando “Beckoning the Void of Eternal Silence” finalmente entra, essa preparação ganha sentido. A faixa-título começa de maneira lenta e ameaçadora, sustentada por guitarras graves e uma bateria que valoriza o peso de cada intervenção. A aceleração posterior não abandona essa densidade. Pelo contrário, os ataques mais rápidos parecem adquirir maior impacto justamente porque surgem depois de uma construção deliberadamente arrastada.
A interpretação de Kahan é fundamental nesse processo. Seus vocais guturais, particularmente profundos, funcionam quase como uma extensão das guitarras, mas também incorporam gritos mais ásperos que ampliam a agressividade. Há algo de especialmente interessante nessa alternância: a voz não precisa se tornar mais inteligível ou melódica para acompanhar as diferentes atmosferas do disco.
“Ša Nagba Amāru” aprofunda o caráter fúnebre, com um desenvolvimento mais próximo do doom e riffs que avançam lentamente antes de abrir espaço para passagens de maior intensidade. A composição demonstra uma característica importante deste lançamento: a FUNEBRARUM não trata a velocidade como sua principal ferramenta de brutalidade. Em determinados momentos, a repetição de uma sequência grave, acompanhada por intervenções precisas da bateria, produz uma sensação de peso muito superior àquela que seria alcançada com uma sucessão ininterrupta de blast beats.
O trabalho de Charles Koryn merece atenção especial. Sua execução não se limita a acompanhar as guitarras, alternando viradas, conduções mais cadenciadas e ataques rápidos que ajudam a estabelecer a dinâmica das músicas. É uma atuação que contribui significativamente para impedir que a densidade sonora se transforme em monotonia.
Em “Through the Barren Halls of Grieving Emptiness”, a banda recupera uma abordagem mais direta, com riffs que encontram parte de sua força na tradição do death metal sueco. A composição ganha velocidade progressivamente e permite que as guitarras explorem passagens mais elaboradas sem abandonar completamente o caráter primitivo da música.
Essa relação entre diferentes escolas do death metal é um dos aspectos mais interessantes do trabalho. A influência de INCANTATION permanece reconhecível na profundidade dos riffs e nas passagens mais arrastadas, enquanto o caráter melódico e a atmosfera de determinados trechos remetem à tradição finlandesa de bandas como DEMIGOD e ABHORRENCE. Não se trata de uma simples colagem de referências: a FUNEBRARUM utiliza esses elementos dentro de uma identidade que desenvolveu muito antes de o death metal cavernoso se tornar uma sonoridade amplamente explorada por novas bandas.
“Into Dark Domains” é particularmente eficiente nesse aspecto. A composição trabalha com andamentos mais lentos, estabelecendo uma atmosfera sufocante, mas encontra espaço para ataques violentos e mudanças de andamento que impedem sua estrutura de se tornar previsível. A alternância entre os momentos mais próximos do doom e as acelerações oferece um exemplo convincente de como o grupo consegue articular peso e velocidade sem tratar essas características como elementos opostos.
A breve “Ancestral Manor” interrompe a sequência e prepara o terreno para “Anhela Odor Mortuorum (The Adepts)”, uma das composições mais interessantes do disco. Os teclados contribuem para ampliar a atmosfera ocultista, enquanto as guitarras recuperam uma abordagem especialmente pesada. Conforme a música avança, a banda alterna passagens mais lentas com intervenções melódicas e ataques rápidos, desenvolvendo uma estrutura que justifica sua duração.
A presença de Phil Tougas é particularmente perceptível nessas construções. Os solos acrescentam melodias inesperadas a um repertório dominado por frequências graves e dissonâncias, enquanto os teclados introduzem uma dimensão atmosférica que não descaracteriza a música. Existe, entretanto, uma ressalva: em determinados momentos, o virtuosismo das guitarras parece disputar espaço com o caráter mais rudimentar da FUNEBRARUM. O resultado continua musicalmente interessante, mas nem sempre preserva aquela sensação de brutalidade instintiva que distinguia os primeiros trabalhos.
“From Rotting Burial Shrouds” oferece uma resposta a essa questão. Mais curta e objetiva, a faixa recupera uma agressividade menos preocupada com desenvolvimentos extensos. A bateria assume uma condução particularmente intensa, os riffs apresentam maior urgência e a composição encontra sua força justamente na ausência de excessos.
O contraste com “Turning the Stones of Torment” é interessante. A faixa seguinte recupera uma construção mais elaborada, com passagens dissonantes e mudanças de andamento, mas não alcança a mesma capacidade de envolvimento. Há bons momentos instrumentais, embora algumas ideias pareçam prolongadas além do necessário. É uma das poucas ocasiões em que a riqueza dos arranjos não se converte integralmente em uma composição igualmente memorável.
O encerramento com “The Whispering Cathedral – Epilogue” recupera a proposta mais ambiciosa do álbum. São quase nove minutos nos quais a FUNEBRARUM combina riffs arrastados, passagens de maior agressividade e intervenções atmosféricas que estabelecem uma relação com a introdução. O desenvolvimento é extenso, mas coerente com a linguagem construída ao longo do trabalho. Em vez de encerrar o repertório com uma última demonstração de velocidade, a banda procura concluir a experiência retomando a atmosfera sombria que acompanha o disco desde os primeiros segundos.
A produção contribui decisivamente para esse resultado. Gravado em diferentes estúdios e posteriormente trabalhado por Stephen DeAcutis, “Beckoning the Void of Eternal Silence” apresenta uma sonoridade encorpada, na qual o peso das guitarras não elimina completamente a definição dos instrumentos. O baixo participa da construção da densidade, a bateria conserva presença e os elementos atmosféricos encontram espaço sem dominar os arranjos.
Ainda assim, é justamente nesse aspecto que reside uma das principais diferenças em relação aos primeiros discos. A FUNEBRARUM soa mais organizada, e sua produção evidencia uma preocupação maior com a definição das diferentes camadas instrumentais. Ganha-se em dimensão e clareza, embora parte daquela aspereza quase sufocante dos registros anteriores acabe atenuada.
“Beckoning the Void of Eternal Silence” é um retorno convincente de uma banda que continua compreendendo profundamente a linguagem do death metal tradicional. Seu grande mérito não está em tentar recuperar artificialmente a brutalidade dos primeiros trabalhos, mas em desenvolver uma sonoridade mais ampla sem abandonar os elementos que estabeleceram sua identidade.
Nem todas as composições apresentam o mesmo poder de envolvimento, e alguns desenvolvimentos poderiam ser mais concisos. Entretanto, a força dos riffs, a interpretação de Daryl Kahan e a qualidade dos arranjos sustentam um álbum cuja atmosfera permanece consistente do início ao fim.
Depois de tantos anos, a FUNEBRARUM retorna com um trabalho que não depende exclusivamente do prestígio de sua discografia para justificar sua existência. Há boas composições, uma identidade musical preservada e uma formação capaz de conduzir essa linguagem para além de seus aspectos mais previsíveis. A espera foi longa, mas o resultado apresenta razões musicais suficientes para que a banda volte a ocupar um espaço importante entre os nomes do death metal underground. Taí um disco que você precisa (e muito) conhecer!
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Beckoning the Void of Eternal Silence”, “Into Dark Domains”, “From Rotting Burial Shrouds” e “The Whispering Cathedral – Epilogue”
9.3/10
(Daniel Aghehost)