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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: MOONSPELL - Far From God (2026 - Valhall Music)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 06/08/2026 11:08
Resenhas

MOONSPELLFar From God

Portugal | Gothic Metal

Valhall Music | Clique aqui para adquirir

2026

 

FORMAÇÃO

Pedro Paixão - Keyboards, Samples, Programming, Songwriting

Fernando Ribeiro - Vocals, Lyrics

Ricardo Amorim - Guitars, Songwriting

Aires Pereira - Bass

Hugo Ribeiro - Drums

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Minha relação com a MOONSPELL mudou depois de “Irreligious” (1996). Não acompanhei cada lançamento com a mesma proximidade dedicada aos dois primeiros álbuns, mas isso não significa que ignorei totalmente os caminhos percorridos pela banda. À distância, gostei de algumas músicas, ignorei outras e observei uma trajetória marcada por oscilações consideráveis. Discos como “Memorial” (2006), “Night Eternal” (2008) e “Extinct” (2015), se não reafirmaram a força do grupo, pelo menos mantiveram a banda em evidência. Já outros trabalhos me pareceram menos inspirados ou excessivamente presos às próprias ambições. Essa irregularidade, no entanto, também demonstra que os portugueses nunca se acomodaram em uma única fórmula.

Lançado cinco anos depois de “Hermitage”, “Far From God” procura recuperar a essência gótica da banda por meio de arranjos mais diretos, atmosferas bem definidas e uma presença menos ostensiva de elementos sinfônicos. A divulgação o apresenta como o “Irreligious do século XXI” (que medo!!!), comparação que pode tanto despertar curiosidade nos velhos fãs como gerar um sutil escárnio. O novo álbum não reproduz o impacto, a urgência ou o contexto de 1996. O que resgata daquele período é a economia: baixo pulsante, teclados sombrios, guitarras utilizadas com precisão e o barítono de Fernando Ribeiro conduzindo narrativas de amor, distância, culpa e mortalidade.

“Cross Your Heart” apresenta essa direção com uma base movimentada, melodias soturnas e uma cadência próxima do post-punk. A guitarra de Ricardo Amorim alterna ataques mais ásperos e linhas melódicas, enquanto os teclados de Pedro Paixão ocupam o fundo sem transformar a composição em espetáculo sinfônico. O refrão é acessível e revela uma MOONSPELL mais leve do que aquele encontrado em discos mais recentes da banda. Embora funcione como abertura, a faixa não representa plenamente o peso emocional que se espera do grupo.

A faixa-título se aproxima com maior convicção do romantismo sombrio que sempre acompanhou a banda. A voz grave de Fernando, os sintetizadores discretos e a presença marcante do baixo criam uma atmosfera na qual SISTERS OF MERCY, TYPE O NEGATIVE e o próprio passado da MOONSPELL se encontram. A distância de Deus é contraposta à intimidade com o outro, transformando o vampirismo menos em exercício de horror do que em metáfora para um amor condenado. A composição evita explosões desnecessárias e encontra força justamente na contenção. Não há dúvidas de que as coisas estão bem melhores aqui.

“Biblical” está entre os momentos mais bem construídos. A faixa nasce de uma linha de baixo envolvente e acrescenta seus elementos gradualmente, permitindo que guitarras, bateria e teclados aumentem a tensão antes da entrada dos vocais agressivos. O crescimento conduz a um clímax no qual peso e melodia deixam de disputar espaço. É um exemplo de como “Far From God” funciona melhor quando a atmosfera não permanece estática, mas prepara alguma transformação dentro da própria música.

Essa construção também aparece em “The Great Wolf in the Sky”, conduzida por um andamento próximo de uma marcha fúnebre. O baixo pulsante e os teclados criam uma paisagem espectral, atravessada por guitarras melódicas que oferecem alguma luminosidade ao arranjo. Fernando alterna registros graves e agressivos, embora os guturais já não apresentem a mesma força física de outros períodos. Seus vocais limpos, por outro lado, ganharam profundidade e carregam a canção com uma autoridade que o tempo parece ter fortalecido. A participação da violinista Alicia Nuhro engrandece ainda mais a faixa, criando uma atmosfera única no disco. Por tudo isso, esta foi a faixa que me conquistou de imediato.

“Your Promise of Light” trabalha de maneira ainda mais evidente o contraste entre contemplação e peso. As melodias de guitarra possuem discretos contornos orientais, enquanto sussurros, barítono e gritos dramáticos representam diferentes intensidades da narrativa. Pedro Paixão merece destaque pela forma como utiliza os teclados: em vez de encobrir os instrumentos, amplia os espaços e cria uma obscuridade que permanece ao redor da música. Esse equilíbrio impede que a faixa seja reduzida a mais uma composição lenta sustentada por ambientações.

A primeira metade do álbum, entretanto, exige paciência. A insistência em andamentos moderados e texturas sombrias pode diminuir o impacto inicial, principalmente para quem espera riffs mais agressivos ou refrãos imediatos. “Far From God” não é complexo, mas depende de detalhes que se tornam perceptíveis com novas audições. Linhas de baixo, pequenas intervenções da guitarra e mudanças discretas nos teclados revelam um trabalho mais cuidadoso do que sua aparente simplicidade sugere.

É em “For the Love of Mortals” que o romantismo do disco alcança sua expressão mais convincente. Próxima de uma balada gótica, a música apresenta guitarras melancólicas que remetem a momentos de “Extinct”, especialmente “Domina”. Fernando entrega uma de suas interpretações mais emotivas, tratando o amor como experiência inevitavelmente limitada pela mortalidade. Não há necessidade de transformar a faixa em uma explosão dramática: sua força nasce justamente da vulnerabilidade.

A transição para “Our Freedom to Fall” rompe essa delicadeza. Riffs abafados e pesados aproximam a banda do doom/death da PARADISE LOST, enquanto Fernando recupera uma postura mais agressiva. É a composição mais pesada do álbum e uma das poucas em que as guitarras assumem o controle sem dividir constantemente o protagonismo com os teclados. Ricardo Amorim encontra aqui um equilíbrio entre repetição e impacto, construindo um riff simples, mas suficientemente denso para sustentar a mudança de direção.

“Reconquista” encerra o trabalho reunindo peso, solenidade e atmosfera. As guitarras iniciais recuperam algo do caráter noturno de outros períodos da banda, enquanto o baixo e a bateria dão consistência ao desenvolvimento. O solo de Amorim está entre os melhores momentos instrumentais do disco, conduzindo a música até o cântico “Under the moon, under the spell”. A referência à identidade da MOONSPELL poderia soar excessivamente autorreferencial, mas funciona como conclusão ritualística para um álbum interessado em reencontrar sua própria linguagem.

A produção de Jaime Gomez Arellano valoriza essa proposta ao manter baixo, guitarras e teclados claramente definidos. O disco soa encorpado sem estar congestionado, permitindo que os arranjos respirem mesmo nas passagens mais pesadas. Hugo Ribeiro realiza um trabalho seguro na bateria, ainda que raramente se afaste de conduções previsíveis. Aires Pereira, por sua vez, possui uma participação fundamental: seu baixo não apenas acompanha as guitarras, mas determina o movimento de várias composições e fortalece a aproximação com o gothic rock.

“Far From God” não é um novo “Irreligious”, apesar do discurso promocional. Também não representa uma volta completa às origens. O álbum carrega experiências acumuladas em “Extinct”, “1755” e “Hermitage”, mas reorganiza esses elementos em favor de uma sonoridade mais sóbria. A MOONSPELL reaparece menos interessada em demonstrar grandiosidade e mais concentrada em escrever músicas capazes de sustentar uma atmosfera.

Depois de acompanhar a banda à distância durante tantos anos, reconheço em “Far From God” um de seus momentos mais consistentes da fase recente. Nem todas as faixas possuem o mesmo impacto, os andamentos moderados podem produzir algum desconforto e certos vocais extremos revelam desgaste. Ainda assim, o álbum consegue algo importante: recuperar o romantismo, a elegância e a ameaça que fizeram da MOONSPELL uma banda singular, sem depender exclusivamente da nostalgia. Em uma trajetória marcada por altos e baixos, “Far From God” escolhe habitar aquele perigoso meio termo: não será um álbum esquecível, mas também não será um marco na vasta discografia da banda.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Biblical”, “The Great Wolf in the Sky”, “For the Love of Mortals” e “Reconquista”

 

7.8/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

 

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