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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: STORMKEEP – The Nocturnes of Iswylm (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 14/08/2026 10:16
Resenhas

STORMKEEP – The Nocturnes of Iswylm

Estados Unidos | Melodic Black Metal

Vesperian / Black Metal Store | Clique aqui para adquirir

2026

 

FORMAÇÃO

Nebula Husk - Bass, Songwriting

Otheyn Vermithrax - Drums, Vocals, Guitars, Keyboards, Songwriting, Lyrics

Apokteino - Guitars, Songwriting

Lord Dahthar - Keyboards, Songwriting

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Cinco anos depois de “Tales of Othertime” (disco que figurou como um dos melhores daquele ano por alguns dos locutores da DARK RADIO), a STORMKEEP retorna ao universo de Iswylm, mas encontra esse território profundamente transformado. Se o primeiro álbum avançava por grandes paisagens, jornadas heroicas e atmosferas que remetam ao dungeon synth, “The Nocturnes of Iswylm” dirige o olhar para os espaços fechados e para os conflitos interiores de seu protagonista. O aventureiro conhecido como The Seer tornou-se precisamente aquilo que acreditava combater. Agora, precisa enfrentar o vampirismo não como manifestação de poder, mas como vício, corrupção e perda gradual da própria identidade.

Lançado oficialmente no dia 12 de junho pela gravadora Vesperian (sendo lançado também no Brasil pela Black Metal Store), o segundo álbum do quarteto de Denver preserva a base melódica de seu antecessor, mas amplia os elementos sinfônicos e góticos. A mudança não elimina as referências ao black metal dos anos 1990. EMPEROR, DIMMU BORGIR, OLD MAN’S CHILD e BAL-SAGOTH continuam oferecendo coordenadas reconhecíveis, embora o grupo reorganize essas influências em torno de uma narrativa própria. O mérito não está na originalidade absoluta dos elementos, mas na capacidade de construir boas composições com eles.

“The Taste of Immortal Blood” apresenta essa nova direção em pouco mais de sete minutos. Teclados dramáticos antecedem guitarras cortantes, bateria veloz e os vocais ásperos de Otheyn Vermithrax. A entrada das vozes limpas amplia o refrão sem suavizar o peso, enquanto um solo elegante conduz a parte final. Incrível como a utilização de vocais limpos e épicos aumenta ainda mais a teatralidade da faixa, deixando-a ainda mais fascinante. A quantidade de camadas é considerável, mas os teclados permanecem em função das guitarras, evitando uma das armadilhas mais recorrentes do black metal sinfônico: substituir riffs por ornamentação.

Esse equilíbrio resulta também do trabalho de produção realizado pela banda com Michael Zech, conhecido por suas colaborações com DARK FORTRESS, SECRETS OF THE MOON e THE RUINS OF BEVERAST. A masterização de Arthur Rizk preserva a definição dos instrumentos sem retirar a aspereza necessária. O álbum possui dimensão cinematográfica, mas não soa excessivamente polido. As orquestrações crescem ao redor da base metálica em vez de encobri-la.

“The Black Dragons of Iswylm” concentra o lado mais beligerante do álbum. Apoiada por riffs pesados e uma cadência quase marcial, a faixa avança por sucessivas mudanças de andamento, alternando ataques velozes da bateria, progressões sinuosas e camadas orquestrais de tonalidade sombria. 

A estética permanece firmemente ligada ao black metal sinfônico, mas a robustez das guitarras e o peso rítmico acrescentam uma agressividade que por vezes se aproxima do death metal tradicional. O ponto decisivo está na maneira como a banda administra esses contrastes: quando a intensidade recua, uma passagem conduzida pelo piano amplia a dimensão dramática da composição antes de devolver a música ao confronto. Mesmo cercadas por teclados e arranjos grandiosos, as guitarras continuam no centro da mixagem, garantindo que o espetáculo não substitua o impacto físico. 

A relação entre peso e melodia ganha outro formato em “Saccharine Subjugation”. A faixa conserva parte do impulso de “Tales of Othertime” e oferece um dos pontos de acesso mais imediatos ao álbum. As melodias são desenvolvidas gradualmente até um encerramento conduzido por guitarras ascendentes, revelando que a STORMKEEP não precisa recorrer sempre à velocidade para produzir grandiosidade. É também um dos momentos em que a fantasia deixa de parecer simples cenário e passa a determinar o movimento emocional da música. No trecho final, Apokteino assume o protagonismo com um trabalho de guitarra que amplia o alcance da composição. As linhas melódicas são construídas com precisão e sensibilidade, conduzindo a faixa a um desfecho refinado e imponente. Mais do que um exercício técnico, sua atuação acrescenta profundidade e transforma os minutos finais em um dos grandes momentos do disco.

“Imperious Sanguine Eroticism” rompe deliberadamente o curso mais impetuoso do álbum e o conduz a uma atmosfera extremamente gótica. O andamento moderado, os vocais limpos e a presença dominante dos teclados substituem o confronto exterior por uma tensão mais íntima, enquanto as passagens acústicas conferem ao trecho final uma inesperada delicadeza.

Essa mudança de linguagem não representa uma perda de intensidade, mas outra forma de expressá-la: mesmo distante das faixas mais pesadas do disco, a composição permanece densa e soturna. Ao quebrar o clima estabelecido até então, a STORMKEEP transforma a própria estrutura musical em extensão do conflito de The Seer. A personagem já não atravessa apenas os perigos do mundo de Iswylm; atravessa a instabilidade daquilo que está se tornando.

Dentro da sequência do álbum, a faixa funciona como um momento de suspensão no qual a transformação deixa de ser apenas narrativa e passa a ser percebida na própria matéria da música.

Essa mudança ajuda a compreender a principal diferença entre os dois álbuns. Em “Tales of Othertime”, a aventura era determinada pelo movimento. Havia estradas, paisagens e a sensação de que o protagonista avançava em direção a um inimigo claramente reconhecível. No novo trabalho, o adversário está dentro de si. O vampirismo surge como uma herança maldita e uma forma de dependência: quanto mais The Seer procura dominá-lo, mais se aproxima daquilo que desejava destruir.

“Echoes in the Vasts of Sequestration” traduz esse aprisionamento por meio de uma construção marcadamente atmosférica. A faixa começa retraída e amplia gradualmente sua intensidade, combinando teclados sombrios, guitarras melódicas e investidas mais próximas da agressividade tradicional do black metal. As sucessivas variações impedem que sua duração resulte em repetição e também evidenciam o domínio técnico dos músicos, indispensável para sustentar um arranjo tão detalhado. Um dos momentos mais interessantes surge na interação entre o baixo de Nebula Husk e a bateria de Otheyn Vermithrax, cuja condução confere movimento e profundidade à composição. Ainda assim, a música reforça uma característica de “The Nocturnes of Iswylm”: seus refrãos são menos imediatos e algumas melodias precisam de tempo para se fixar, fazendo deste um álbum mais exigente do que seu antecessor.

“Carnal Tapestries of Nailtorn Flesh” concentra o conflito entre desejo e resistência. Sua letra descreve uma cidade submetida a mestres ofidianos, mas direciona a narrativa para a luta do protagonista contra a própria fome. O sangue e a carne deixam de ser apenas imagens de horror e passam a representar uma vontade que ameaça controlar quem acredita possuí-la. Musicalmente, riffs mais agressivos convivem com orquestrações claustrofóbicas e um trabalho vocal mais variado, tornando a faixa um dos centros dramáticos do álbum.

A narrativa fantástica poderia facilmente conduzir a banda ao excesso. Dragões, vampiros, feiticeiros e reinos inventados costumam perder sua força quando utilizados apenas como decoração. Aqui, porém, esses elementos possuem função psicológica. A transformação de The Seer permite abordar culpa, compulsão e a percepção de que combater o mal não torna ninguém imune à sua influência. Iswylm funciona porque suas criaturas carregam conflitos reconhecivelmente humanos.

“Ballad of a Fallen Star” encerra o álbum em seus nove minutos e meio mais ambiciosos, reunindo a ferocidade do black metal, a imponência dos teclados, os vocais limpos e as melodias de guitarra em uma síntese de tudo o que a STORMKEEP apresentou anteriormente.

A abertura, conduzida por violões melancólicos e sintetizadores de caráter quase fúnebre, parece inicialmente inofensiva, mas essa contenção é apenas o ponto de partida para um crescendo cuidadosamente articulado. A cada nova camada, a composição adquire corpo, tensão e profundidade, como se reproduzisse musicalmente os passos da transformação conturbada de The Seer. O avanço não ocorre em linha reta: passagens contemplativas, explosões de violência e arranjos gótico-sinfônicos se sucedem até que a queda da personagem deixe de ser apenas narrada e passe a ser sentida na própria dinâmica da música. Ao preservar momentos de silêncio e fragilidade entre seus grandes movimentos, a banda evita que a grandiosidade se torne um fim em si mesma e confere verdadeiro peso emocional ao desfecho. Um primor!

A formação demonstra domínio dessa linguagem. Otheyn Vermithrax assume vocais, guitarras, bateria e parte dos teclados, conduzindo o núcleo criativo sem transformar os demais músicos em figurantes. Apokteino acrescenta profundidade às guitarras, Nebula Husk oferece sustentação no baixo e Lord Dahthar amplia a dimensão sinfônica. Os vocais limpos nem sempre possuem a força imediata das interpretações ásperas, mas funcionam como contraponto e ajudam a diferenciar personagens, estados emocionais e passagens da narrativa.

A opção de praticamente abandonar os interlúdios de dungeon synth pode frustrar quem via neles uma das marcas da STORMKEEP. Foi, entretanto, uma decisão consciente. Depois de explorar esse território nos lançamentos anteriores, o grupo preferiu incorporar a ambientação diretamente às composições. Com isso, o álbum ganha maior continuidade e evita que as faixas instrumentais funcionem apenas como separações entre os momentos principais.

“The Nocturnes of Iswylm” não apresenta uma linguagem inédita para o black metal sinfônico, tampouco tenta esconder suas referências. Seu valor está na disciplina com que utiliza melodias, riffs e orquestrações para sustentar uma narrativa, preservando o peso mesmo quando a grandiosidade ameaça ocupar todo o espaço. Há passagens menos imediatas e os vocais limpos exigem alguma adaptação, mas a riqueza dos arranjos recompensa novas audições.

Mais sombrio, psicológico e coeso do que seus trabalhos anteriores, o álbum confirma que o mundo criado pela STORMKEEP não existe apenas para acomodar batalhas e criaturas fantásticas. Iswylm ganhou profundidade porque seu maior conflito deixou de acontecer entre exércitos. A verdadeira guerra agora se desenvolve dentro daquele que um dia acreditou ser o herói.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“The Taste of Immortal Blood”, “The Black Dragons of Iswylm” e “Ballad of a Fallen Star”.

 

9.0/10

 

(Daniel Aghehost)

 

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