NUNSLAUGHTER – Satanic Chaos Legions
Estados Unidos | Death Metal
BLKIIBLK Records / Shinigami Records | Clique aqui para adquirir
2026
FORMAÇÃO
Don of the Dead - Vocals
Tormentor - Guitars
Wrath - Drums
Malum - Bass
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Poucos discos lançados em 2026 (vou mais longe: lançados nesta década) me causaram uma impressão tão imediata quanto “Satanic Chaos Legions”. São 14 músicas distribuídas em pouco mais de 34 minutos, sem introduções cinematográficas, interlúdios dispensáveis ou qualquer tentativa de parecer maior do que realmente é. A NUNSLAUGHTER entra, descarrega sua tonelada de riffs profanos e desaparece antes que o ouvinte consiga recuperar o fôlego. A pergunta que permanece é inevitável: por que quase ninguém está falando sobre este disco?
Fundado ainda nos anos 1980, o grupo norte-americano construiu uma das discografias mais extensas do underground, acumulando demos, compactos, registros ao vivo e uma quantidade quase incalculável de splits (sério: dá uma olhada na discografia da banda e veja que é humanamente impossível ter tudo que estes caras lançaram). Os álbuns completos, no entanto, sempre foram mais raros. “Satanic Chaos Legions”, sucessor do fudido “Red Is the Color of Ripping Death”, lançado em 2021, é apenas o sexto full-length de uma trajetória que já ultrapassou quatro décadas.
Não há qualquer ruptura em relação ao que a banda costuma fazer. A combinação entre death metal primitivo, thrash, black metal e hardcore continua fundamentada na mesma escola formada pelos baluartes da música extrema. A diferença está na precisão. A NUNSLAUGHTER nunca pareceu tão consciente de suas próprias possibilidades: as músicas estão mais compactas, os riffs aparecem com maior definição e a produção mantém a aspereza necessária sem transformar tudo em uma massa sonora indistinguível.
A faixa-título inicia o massacre com guitarras velozes, bateria explosiva e a interpretação imediatamente reconhecível de Don of the Dead. O vocalista continua soando como um pregador expulso do próprio inferno, cuspindo blasfêmias com uma convicção que muitas bandas tentam reproduzir por meio de personagens, figurinos e conceitos elaborados. Na NUNSLAUGHTER, essa linguagem parece natural. É menos uma encenação do que uma tradição cultivada durante décadas.
“Jesus Fucking Dies” resume essa eficiência em apenas 80 segundos. A música aparece, desfere alguns golpes e termina sem procurar uma resolução mais elaborada. “Unsacrament” prolonga a investida com uma aproximação ainda mais evidente entre death e thrash metal, enquanto “Christian Ruse” recupera a tensão dos primeiros trabalhos da SLAYER sem se limitar à reverência. A guitarra de Noah Buchanan trabalha com riffs simples, mas extremamente eficazes, demonstrando que brutalidade não depende da quantidade de notas, e sim da maneira como elas são organizadas.
Essa simplicidade, aliás, é uma das maiores virtudes do disco. A banda sabe exatamente quando interromper uma ideia. Não existem solos prolongados, repetições destinadas a aumentar artificialmente a duração das faixas ou passagens técnicas inseridas apenas para exibir habilidade. Cada música permanece em cena pelo tempo necessário para cumprir sua função. Quando “Die Your Own Death” surge com sua violência quase descontrolada, tudo parece prestes a desabar, mas a banda conserva domínio absoluto sobre o caos.
A seção rítmica é decisiva para esse equilíbrio. O baixo distorcido de Mike Jochum acrescenta uma camada de sujeira aos riffs, enquanto Joe Lowrie alterna ataques velozes, blast beats e conduções de forte influência hardcore. Essa ligação com o punk ajuda a explicar por que o álbum possui tanta energia. Mesmo nas passagens mais primitivas, o grupo nunca soa preguiçoso ou artificialmente retrô. É música construída para causar movimento, seja no palco, seja no pescoço do ouvinte.
O disco também respira melhor quando reduz a velocidade. “Peukharist” abandona momentaneamente a urgência das primeiras músicas para construir uma atmosfera mais opressiva. Seu riff central é básico, pesado e repetitivo na medida correta, produzindo uma sensação de esmagamento gradual. “In the Flames of Inferno” segue por um caminho semelhante, evocando a densidade de “Hell Awaits” sem perder a concisão que caracteriza o álbum.
“Heavenless” reforça esse lado cadenciado com uma condução quase arrastada. Depois de tantas faixas rápidas, a mudança de andamento amplia a sensação de peso e impede que o trabalho se torne previsível. Já “Cathedral of Stench” reúne boa parte dessas qualidades em uma única composição: começa com andamento médio, acelera, atravessa mudanças rítmicas e mergulha numa passagem quase doom antes de recuperar sua violência inicial. É um pequeno exemplo de como a NUNSLAUGHTER consegue desenvolver ideias sem abandonar sua linguagem direta.
Mesmo quando trabalha com estruturas aparentemente rudimentares, a banda encontra espaço para melodias e refrões facilmente reconhecíveis. “Lucifer the Light” é praticamente um ataque thrash com inclinação para o punk, conduzido por guitarras que parecem ter sido retiradas de algum porão de 1985 e submetidas a uma descarga elétrica. “Rotten Messiah”, por sua vez, alterna velocidade e groove sem perder agressividade. O resultado é um disco brutal, mas surpreendentemente fácil de memorizar.
Nos minutos finais, qualquer possibilidade de contenção é abandonada. “Listen to the Lies” aproxima o death metal do grindcore em uma explosão encerrada de maneira abrupta. “Infernal Reign” carrega uma energia assumidamente punk, enquanto “The Spear of Satan” conclui o trabalho com pouco mais de um minuto de riffs, bateria acelerada e desordem cuidadosamente administrada.
A produção representa um ponto importante. “Satanic Chaos Legions” possui um acabamento mais nítido do que boa parte do material histórico da banda, mas não soa limpo demais. As guitarras continuam cortantes, o baixo permanece sujo e a bateria possui impacto físico. É possível compreender o que cada músico está fazendo sem retirar da gravação sua aparência de registro clandestino. Para uma banda cuja identidade depende tanto da crueza, encontrar essa medida é fundamental.
Talvez parte do silêncio em torno do lançamento venha justamente da coerência da NUNSLAUGHTER. Em uma época na qual qualquer pequeno ajuste estético é apresentado como transformação artística, a banda não oferece uma narrativa de reinvenção. Não há mudança radical, conceito grandioso ou tentativa de conquistar um público diferente. Existe apenas um grupo veterano executando sua música com mais precisão, intensidade e entusiasmo do que muitas bandas formadas recentemente.
“Satanic Chaos Legions” mostra ao ouvinte que o death metal ainda pode ser visceral, maligno e perigosamente viciante quando tocado com convicção. É rápido sem ser superficial, primitivo sem ser descuidado e repetitivo apenas o suficiente para fixar seus riffs na memória. Depois de mais de quarenta anos, a NUNSLAUGHTER não precisa cativar novos ouvintes ou aparecer em trends de melhores bandas do gênero. Ainda assim, para os maníacos que conhecem sua trajetória, a banda é sim um dos maiores destaques do estilo.
E, diante de um disco tão direto, contagiante e absurdamente bem resolvido, permanece o espanto: como quase ninguém está falando sobre isso?
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Satanic Chaos Legions”, “Christian Ruse”, “Peukharist”, “Heavenless”, “Cathedral of Stench” e “Listen to the Lies”.
9.5/10
(Daniel Aghehost)